O que significa Assata Shakur para Angela Davis

Na década de 70, enquanto Assata Shakur esperava julgamento por ser cúmplice em um assassinato, eu participei de um evento beneficente na Universidade Rutgers1 em New Brunswick, Nova Jérsei, para levantar fundos para sua defesa. Na época, Assata estava presa na Unidade Correcional para Homens de Middlesex2 . Lennox Hinds, professor da universidade, havia me convidado para ser uma das palestrantes no evento. Lennox era um líder da Conferência Nacional de Advogados Negros3 e representava Assata em um processo federal contestando as condições aterrorizantes do seu confinamento na prisão de Nova Jérsei. Ele havia trabalhado anteriormente no meu caso e nós dois havíamos sido líderes da Aliança Nacional contra a Repressão Racista e Política4 desde sua fundação em 1973. No evento beneficente havia funcionários da faculdade, um considerável número de profissionais negros e ativistas locais que eram o suporte principal de diversas campanhas para libertação de presos políticos da época.

Foi um evento alegre, cheio do otimismo típico da época. Minha própria recente absolvição das acusações de assassinato, sequestro e conspiração serviram como exemplos dramáticos de como nós podíamos desafiar as ofensivas do governo contra movimentos antirracistas radicais com sucesso. Não importa quão poderosas as forças estavam contra Assata – o programa de contrainteligência do FBI5 e as instituições policiais de Nova Jérsei e Nova Iorque – ninguém conseguia nos convencer na época que não éramos capazes de construir um movimento bem sucedido pela liberdade de Assata. Esse evento foi um passo pequeno nessa direção e, enquanto saíamos de lá, estávamos bastante satisfeitos com os três mil dólares que levantamos naquela tarde.

Àquela altura, todo ativista político havia aprendido a presumir que nossas reuniões públicas estavam sob vigilância da polícia e/ou do FBI. Apesar disso, nós estávamos totalmente despreparados para o que pareceu uma recriação dos eventos que ocorreram em 1973 e levaram à acusação de assassinato contra Assata. Assata, Zayd Shakur e Sundiata Acoli foram parados na Rodovia de Nova Jérsei6 por policiais estaduais que alegaram que estavam com uma lanterna traseira quebrada. O episódio deixou Assata gravemente ferida e outros dois – o policial estadual Werner Foerster e o amigo de Assata, Zayd Shakur – mortos. Enquanto alguns de nós deixamos o evento e dirigíamos por uma rodovia municipal em direção à casa de Lennox Hind, onde acontecia uma pequena festa, nós ficamos bastante surpresos quando policiais locais sinalizaram para que parássemos o carro. Pediram para a minha amiga Charlene Mitchell, na época diretora executiva da Aliança, sair do carro juntamente com a pessoa que estava dirigindo e a outra que estava conosco. Enquanto os policiais nos provocavam pondo claramente as mãos em suas armas, fui orientada a ficar no carro vazio. Lennox, que estava no carro da frente, imediatamente deu a volta e abordou os policiais com sua identificação de advogado, dizendo que era meu advogado. Isso fez com que os policiais ficassem visivelmente mais nervosos, incluindo um que puxou uma arma de bala de borracha da sua viatura e se encaminhou para mirar contra Lennox bem de perto. Todos nós ficamos paralisados. Nós sabíamos muito bem que qualquer gesto inocente poderia levá-los a sacar suas armas e esse confronto poderia levar facilmente a uma recapitulação dos eventos que deixaram Assata com a acusação de assassinato.

A falsa explicação dada pelo policial para a emboscada foi um pedido de prisão em meu nome (mais tarde provado ser falso). Apesar de terem deixado a gente partir, logo depois que chegamos na casa do Lennox, descobrimos que eles já haviam pedido reforço e literalmente cercado a casa. Com uma das primeiras mulheres a serem juíza em Nova Jérsei e diversas outras figuras importantes da comunidade na casa, nós fomos obrigados a chamar forças maiores na forma do deputado John Conyers em Washington. Nós pensamos que um pedido de escolta federal até estarmos fora do estado de Nova Jérsei talvez pusesse alguma pressão na polícia local. Essa era o tipo de medida – e amigos – necessária naquela época.

Eu relatei esse incidente em específico porque talvez ajude os leitores da autobiografia da Assata não apenas a focar no papel da polícia durante a década de 70, mas também a melhor entender aspectos históricos importantes da estereotipização rotineira associada às práticas policiais atuais. Tal perspectiva histórica é importante hoje quando expressões descaradas de racismo estrutural – como o perfil de encarceramento em massa a qual comunidades de pessoas de cor7 são submetidas – são invisibilisadas pelo medo predominante de crimes. E se isso não bastasse, nós vemos que ao mesmo tempo, soluções como programas de ações afirmativas e auxílios do governo são constantemente suspensos.

Quando Richard Nixon8 levantou a bandeira de “lei e ordem” nos anos 70, isso foi usado em parte para desacreditar o movimento de libertação negra e para justificar a utilização da polícia, tribunal e prisões contra figuras chaves nesse e outros movimentos radicais da época. Atualmente, a irônica associação da diminuição da taxa de crimes e a consolidação de complexos industriais de prisão que faz altas taxas de encarceramento virarem sua necessidade econômica facilitou o aprisionamento de duas milhões de pessoas nos Estados Unidos. Nesse contexto ideológico, presos políticos como Assata Shakur, Mumia Abu-Jamal e Leonard Peltier são representados no discurso político popular como criminosos que merecem ou ser executados ou passar o resto de suas vidas atrás das grades.

Durante o fim dos anos 90, a histeria racista direcionada contra Assata foi ressuscitada quando a Polícia Estadual de Nova Jérsei utilizou a primeira vista do papa João Paulo II a Cuba para pressionar Fidel Castro a extraditar Assata. Como se não fosse bastante, a governadora de Nova Jérsei Christine Todd Whitman ofereceu $50.000 de recompensa – depois dobrada – pela extradição de Assata e o Congresso passou uma pauta pedindo ao governo de Cuba que iniciasse o procedimento de extradição.

Em um carta aberta ao Papa, Assata faz uma pergunta que diz respeito a todos nós: “Por que, eu me pergunto, eu chamo tanta atenção? O que eu represento que é tamanha ameaça?” Nós todos deveríamos nos esforçar para responder à questão dela. Por que, de fato, ela foi construída pelo governo e pela imprensa de massa como uma perfeita inimiga nos anos 70 para ressurgir na virada do século como único alvo dos governantes, Congresso e da Ordem Fraternal de Polícia9 ? O que fizeram ela representar? Que trabalho ideológico essa representação fez?

Nos anos 70, a imagem de Assata Shakur foi escancarada em cartazes oficiais de procurada do FBI e na imprensa como evidência visual das motivações terroristas do movimento pela libertação negra. Militantes negros eram considerados inimigos do estado e eram associados aos desafios comunistas à democracia capitalista. A longa busca por Assata, durante a qual ela foi demonizada de maneiras que hoje são inimagináveis, serviu depois para justificar o aprisionamento de um grande número de ativistas políticos, muito dos quais continuam presos até hoje.

Vinte e cinco anos depois, a distribuição da imagem de Assata como inimiga é ainda mais prejudicial, omitindo o contexto político e representando-a como uma criminosa normal – uma assaltante de bancos ou assassina. Essa recuperação da imagem dela do passado por motivos bastante atuais serve para justificar a consolidação de um grande complexo prisional industrial, que Assata descreveu como “…não apenas um mecanismo para converter dinheiro público de impostos em lucro para corporações privadas, mas também um elemento essencial do capitalismo neoliberal moderno.” No seu ponto de vista, essa nova formação tem dois motivos: “um, neutralizar e conter um grande segmento de potenciais setores rebeldes da população e, dois, manter um sistema de superexploração, onde principalmente presos negros e latinos são emprisionados em comunidades rurais brancas e supervisionadas.”

Como a citação acima revela, Assata continua bastante engajada na política radical atual dos Estados Unidos, apesar dela não poder visitar esse país desde sua fuga da prisão e sua decisão de ficar em Cuba muitos anos atrás. Enquanto você lê sua extraordinária autobiografia, você irá descobrir uma mulher que não possui nada em comum com a representação hostil que se nega a sumir. Eu peço que reflita o que deve ter significado para ela não ter podido ir ao funeral de sua mãe ou visitar seu novo neto. Enquanto você acompanha a história da sua vida, você irá descobrir um ser-humano compassivo com um compromisso imutável por justiça que vai facilmente da questão racial à étnica, dentro e fora da prisão e oceano e tempo afora. Ela atinge a todos nós e, especialmente, aqueles de nós isolados em uma rede global de prisões e cadeias que está em crescimento. Em um tempo em que otimismo saiu do nosso vocabulário político, ela oferece valores sem preço – inspiração e esperança. Suas palavras nos lembram, como Walter Benjamin uma vez observou, que é apenas pelo amor daqueles sem esperança que a esperança é dada a nós.

Angela Y. Davis
Universidade da California, Santa Cruz
Março de 2000

1 Universidade Estadual de Nova Jérsei.
2Do original Middlesex County Correctional Facility for Men.
3Do original National Conference of Black Lawyers.
4Do original National Alliance Against Racial and Political Repression.
5Programa COINTELPRO (Counter Intelligence Program) do FBI (Federal Bureau of Investigation) criado para perseguir e destruir especificamente movimentos Negros considerados radicais.
6Do original New Jersey Turnpike.
7Do original people of color. Na língua inglesa, essa expressão não possui o caráter pejorativo que possui na língu portuguesa e é utilizada para se referir à pessoas que não são brancas, como Negros, Latinos, Indígenas etc.
8Presidente dos Estados Unidos entre 1969 a 1974.
9Do original Fraternal Order of Police.


Esse texto é uma repostagem de outro blog chamado “Assata Shakur em português”, ele é o préfacio escrito por Angela Davis para o livro Assata: Uma Autobiografia de Assata Shakur, disponível aqui.

A tradução original é de foc.

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