Camaradas: não nascem, se tornam

Toda política revolucionária se baseia no otimismo revolucionário: a crença, enraizada nas experiências de luta, de que os trabalhadores e oprimidos podem e vão vencer. Entretanto, o otimismo revolucionário não se aplica às massas como um todo. Militantes revolucionários acreditam não apenas no potencial das massas como um todo, mas também como indivíduos.

As pesquisas recentemente popularizadas sobre “mindset” [modelo mental ou mentalidade] e aprendizado podem contribuir com esse tópico e ajudar militantes não apenas com seus próprios desenvolvimentos, mas no desenvolvimento do potencial de outros com quem eles têm contato. Antes de investigar o que é “mindset” e como seu entendimento pode ser interessante para os militantes, seria útil revisar um entendimento marxista da “inteligência” em contraste com as concepções burguesas e racistas.

A maioria das pessoas provavelmente concordaria que “ser inteligente” é um atributo desejável. A natureza da “inteligência” ou das “inteligências” está além do escopo deste artigo, mas o discurso acerca da inteligência parece se dividir em duas amplas narrativas: inteligência como uma característica inata dos indivíduos vs inteligência como comportamentos e hábitos da mente construídos e definidos socialmente.

Alguém nasce com uma quantidade definida de inteligência ou pode a inteligência crescer e mudar ao longo da vida? A noção de que as pessoas nascem com um nível fixo de inteligência foi captada pelos elementos mais racistas da sociedade, que usaram uma espúria “ciência” para defender a suposta superioridade dos brancos. Se a inteligência não é um simples atributo fixo dos indivíduos, como ela é (ou outras formas de competência) socialmente construída e determinada? E qual é o papel do indivíduo em promover o crescimento da própria prática de competência?

Para resumir amplamente uma abordagem socialista da “inteligência”, pode-se dizer: a “inteligência” não apenas é uma característica dinâmica que pode mudar ao longo da vida das pessoas, mas, além disso, o que conta como inteligência também se modifica em resposta a mudanças na estrutura da sociedade humana, incluindo o desenvolvimento dos meios de produção.  Por exemplo, durante a Idade Média, a capacidade de copiar documentos à mão era vista como o sinal de um verdadeiro intelectual. Mas a invenção da imprensa, e agora, das fotocopiadoras e impressoras, tornou a cópia manual praticamente irrelevante.

As concepções dominantes da inteligência geralmente servem para reforçar o capitalismo e suas várias formas de opressão, do racismo ao capacitismo. Qualquer abordagem socialista da inteligência deve levar isso em consideração, interrogando como certos padrões de inteligência fazem isso e mantendo nossa definição aberta a suas diversas manifestações.

Vygotsky e a Zona de Desenvolvimento Proximal

O trabalho de Vygotsky é fundamental para nossa compreensão desta questão. No contexto dos primeiros dias da Revolução Russa, Vygotsky foi pioneiro da psicologia comunista que introduziu a análise sociocultural ou sócio-histórica do desenvolvimento humano. A análise vygotskiana vê o desenvolvimento humano como uma síntese de fatores biológicos, sociais, e históricos. Cada criança se desenvolve no contexto de uma estrutura de grupo específica, localizada em uma cultura específica, em um momento específico da história. Cada um destes fatores interagem de forma a influenciar o desenvolvimento físico, mental e emocional da criança. Por sua vez, o que conta como desenvolvimento em primeiro lugar, é também produto de condições históricas e materiais.

Vygotsky é mais conhecido hoje no Ocidente por sua teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Essa é a ideia de que o aprendizado ocorre quando alguém ajuda o aluno a fazer o que ainda não pode fazer independentemente. Em vez de ver a inteligência como um atributo estático, Vygotsky estava interessado no ZDP da criança. No lugar de analisar o quanto uma criança já aprendeu como um meio de avaliar sua inteligência, Vygotsky estava mais interessado no que a criança poderia potencialmente fazer. Vygotsky inclusive levou em consideração o entendimento de que o que existe para ser potencialmente aprendido também é condicionado social e historicamente.

Comunidades de prática e “mindset”

Nos anos mais recentes, etnógrafos e educadores exploraram o conceito de comunidades de prática como um local para o desenvolvimento da ZDP. Pesquisadores observaram alfaiates, membros do AA, professores, dentre outros, como formadores de comunidades de prática, onde os membros mais experientes ajudam os membros mais novos a desenvolver competências nos modos da comunidade. Mais uma vez, esse conceito tem clara relevância para o movimento político, onde podemos identificar nas organizações políticas as comunidades de prática, nas quais o potencial de novos militantes para fazer diferentes coisas é desenvolvido por meio da interação com membros mais experientes – desde redação, oratória, gerenciamento de projetos e alcance da organização, até logística, segurança, táticas de rua e conhecimentos mais amplos, como no estudo e aplicação da teoria.

O conceito de “mindset”[1] de Carol Dweck recentemente se tornou bem popular. Sua pesquisa seminal analisou crianças que receberam um quebra-cabeça relativamente fácil de resolver. Um grupo foi elogiado por seus esforços e o outro foi elogiado por ser inteligente. As crianças então receberam outro quebra-cabeça para resolver, mas dessa vez um mais difícil. Os elogiados pelos esforços perseveraram e resolveram o quebra-cabeça mais difícil. Os elogiados pela inteligência tendem a desistir diante de uma tarefa mais desafiadora.

Por fim, Dweck identificou algo que ela chamou de “mindset” como a chave para o desenvolvimento de potencial. Os alunos com uma mentalidade [mindset] de “crescimento” tendem a acreditar que o sucesso acadêmico é um produto de seu esforço, mesmo quando a tarefa do aprendizado é difícil; enquanto aqueles com uma mentalidade [mindset] “fixa” ou “estabelecida” tende a acreditar que o sucesso é resultado de uma habilidade inata. Uma mentalidade [mindset] de crescimento foi relacionada com maior sucesso acadêmico em comparação com uma mentalidade [mindset] fixa. O conceito relacionado a Angela Duckworth de “garra” (perseverança em face de dificuldades, mais paixão), bem como a ameaça estereotipada de Steele (desempenho reduzido quando as condições de teste evocam o conhecimento de um estereótipo do grupo de identidade do participante – uma variante da mentalidade [mindset] fixa ou “estabelecida”) também se tornaram amplamente conhecidos entre os educadores.

O uso indevido do “mindset” de crescimento e da “garra”

Uma vez que a aprendizagem e a “inteligência” são socialmente construídas entre o aluno, o professor e o contexto sócio-cultural, os conceitos de “mindset”, “garra”, e outros elementos da aprendizagem também devem ser compreendidos em seu contexto, e não como fatores determinantes existentes independentemente ou apenas como atributos dos indivíduos.

No contexto da reforma neoliberal da educação, o “mindset” e a “garra” foram utilizados indevidamente, especialmente de maneira racista. Em vez de combater as grandes desigualdades no sistema educacional – reduzindo as turmas, colocando pessoal adequado de apoio em todas as escolas, garantindo moradia, alimentação e assistência médica às crianças, assim como implementar currículos culturalmente apropriados e anti-racistas – os professores são ensinados a elogiar as crianças de maneiras diferentes e a reforçar positivamente o esforço e a “garra”. Embora não exista nenhum dano no reforço dos esforços, o novo foco na “garra” e no “mindset” promove a ideologia do “se levante você mesmo”, divorciada dos esforços para enfrentar as condições sociais inerentemente desiguais em que as crianças estão aprendendo hoje. Até Duckworth, a estudiosa por trás do conceito de “garra”, criticou os usos aos quais seu conceito foi colocado.

É imoral dizer para crianças famintas, sem-teto, ou traumatizadas pela brutalidade policial, que elas devem ter mais “garra”, quando, na verdade, os mais oprimidos já fazem um esforço tremendo apenas para sobreviver. De fato, pesquisas mostram que estudantes academicamente medíocres de famílias ricas acabam tendo mais sucesso financeiro que estudantes academicamente superiores de famílias pobres. Menos um ponto para a meritocracia.

Além disso, devido à forma como a inteligência é definida pelo sistema educacional dos EUA, o vasto conhecimento e habilidades de crianças de comunidades oprimidas são totalmente desconsiderados.

Militância[2] e o “mindset” de crescimento

Isto posto, existe um lugar para o “mindset” de crescimento dentre os comunistas?

Eu diria que sim, existe. Com o recente crescimento do interesse no socialismo, eu vi a utilidade do “mindset” de crescimento entre muitos novos ativistas. Como um militante, tive contato com pessoas que, francamente, duvidei que tivessem a capacidade de se tornarem bons camaradas, com base em como eles se apresentavam assim que nos conhecemos. Apesar do que eu via como atributos e experiências pouco promissores, algumas pessoas estavam dispostas a participar, assumir novas tarefas, aceitar críticas e continuar tentando. Além de aprender a teoria e a história comunista, esses “ativistas” se tornaram verdadeiros militantes, desenvolvendo habilidades e hábitos mentais como a disciplina, o auto-sacrifício, humildade, investigação, escuta compassiva e muito mais. Também conheci aqueles que dizem que querem ser bons militantes mas expressam idéias mais reflexivas de um “mindset” fixo. Quando desafiados a fazer mudanças, essas pessoas dizem algo como: “Pessoas que podem fazer essa mudança são diferentes ou mais especiais (mais inteligentes ou mais fortes) que eu,” ou “Não sou assim, então não posso fazer isso.” Isso se torna uma desculpa para não mudar o comportamento ou tentar coisas novas e mais difíceis. Quando os socialistas com “mindsets” fixos experimentam um desafio ou fracasso, ficam desencorajados e querem desistir, em vez de tentar descobrir como aprender com a experiência.

Todas as pessoas progressistas devem estar dispostas a ir além de nossas zonas de conforto, de aprender com as experiências, de trabalhar em colaboração (coletivamente), aceitar a disciplina e fazer sacrifícios.

Como militantes, também devemos pensar desta forma acerca dos possíveis recrutamentos. Não podemos anular ninguém com o desejo de lutar com base em seu atual nível de desenvolvimento, devemos ter um otimismo revolucionário sobre o potencial de desenvolvimento futuro de cada um.

[1]  As traduções para o português de Carol Dweck preservam o termo inglês “mindset”, portanto optei, em alguns momentos, por não traduzi-lo e mantê-lo no original.

[2] A autora utiliza os termos “organizing” e “organizer”, para fazer mais sentido no contexto brasileiro optei pelo uso de “militância” e “militante”.


Texto disponível em: https://liberationschool.org/comrades-made-not-born/

Autor: Jane Cutter

Tradutor: Guilherme Laranjeira

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